Dificuldades

A aprendizagem dos conceitos matemáticos demanda da criança estruturas cognitivas que lhes permita compreender o que ele significam. Tais estruturas dizem respeito às noções de conservação de quantidades descontínuas, seriação, classificação, inclusão na série,dentre outras, que estão na base da idéia de número e das operações lógico-matemáticas. Muitas escolas se precipitam na apresentação de conceitos matemáticos para crianças que ainda não possuem estruturas operatórias de pensamento,gerando dificuldades que muitas não teriam se tais conteúdos fossem apresentados no momento adequado.
Os professores se enganam com aqueles alunos que lidam com números, pensando que eles compreenderam seu significado quando, na maioria das vezes agem apenas pelos aspectos figurativos presentes em seu pensamento e encaram os conteúdos ministrados como se conhecimentos sociais o fossem. Para que uma criança compreenda o conceito de número, que é uma abstração,precisa construí-lo cognitivamente. Para isso, necessita possuir estruturas mentais que lhe permitam compreender que o número é construído por uma série de inclusões hierárquicas, como demonstra a figura abaixo:
O número é uma propriedade de conjuntos que compartilham a mesma quantidade de elementos.
O pensamento figurativo é aquele que se relaciona às configurações ou aos estados do objeto. É constituído pela percepção, imitação, imagem mental. Compreende estruturas estáveis, pouco reversíveis. Possui um papel preponderante entre os 2 e os 7 anos, isto é, no estágio de pensamento pré-operatório.
A respeito dos processos de ensino aprendizagem da matemática, o texto de Renato Beranger, professor de matemática e psicopedagogo do Rio de Janeiro, esclarece nossa posição, por isso, leia o anexo "O Ensino dos Algoritmos Aritméticos".
Diante deste quadro, é muito comum que a matemática seja a vilã da escola, que as crianças não gostem de matemática e que muitas dificuldades de aprendizagem surjam, de forma reativa.
Porém, além disso, os conteúdos matemáticos, como todo objeto de conhecimento, têm seu lado manifesto e latente, envolvem aspectos objetivos e subjetivos. Por isso, é campo fértil para que o sintoma apareça associado a eles, pois lidar com quantidades, com somar e subtrair, dividir e multiplicar,não é algo que se faz apenas com objetos concretos dos quais se extrai a propriedade numérica, mas pode ser transcendido para as pessoas e as relações familiares.
Existem áreas do cérebro humano que já se encontram especializadas para o manejo de números e de quantidades. Já se sabe que o hemisfério cerebral direito é o responsável pelas relações espaciais e numéricas. Desta maneira, qualquer lesão que afete uma destas áreas específicas, pode também resultar em uma dificuldade matemática.
As principais dificuldades relacionadas à aprendizagem da matemática são as seguintes:
É o distúrbio neuropsicológico caracterizado pela dificuldade no processo de aprendizagem do cálculo, que se observa, geralmente, em indivíduos de inteligência normal que apresentam inabilidades na realização das operações matemáticas e falhas no raciocínio lógico-matemático. Apresenta-se como uma imaturidade das funções neurológicas ou uma disfunção sem lesão. Suas causas estão ligadas geralmente a quadros de imaturidade neurológica.
Dependendo do grau de imaturidade neurológica da criança, a discalculia pode ser considerada em distintos graus:
Há também a tese de que a discalculia possa ser uma dificuldade lingüística, na medida em que a matemática é uma forma de linguagem. Segundo esta idéia, o discalcúlico apresenta deficiente elaboração do pensamento devido às dificuldades no processo de interiorização da linguagem.
Causas de natureza psicológica também podem ser aventadas, pois indivíduos com alguma alteração psíquica são mais propensos a apresentar transtornos de aprendizagem,já que o emocional interfere no controle de determinadas funções como: atenção, memória, percepção...
Existem explicações, mas não comprovação, da determinação do gen responsável por transmitir a herança dos transtornos no cálculo.Há significativos registros de antecedentes familiares de discalcúlicos que também apresentam dificuldades em matemática.
Porém, apesar de se registrar as etiologias acima descritas, a didática da matemática mal empregada nas escolas é a causa mais determinante das discalculias, pois está diretamente vinculada aos fenômenos que se sucedem no processo de aprendizagem. É a chamada "discalculia escolar", caracterizada por uma dificuldade específica para o aprendizado da matemática, expressa por déficit na integração dos mecanismos do cálculo e resolução de problemas. É uma conseqüência natural e lógica da dinâmica da aprendizagem, portanto não é patológica, apresentada pelos alunos no começo da aprendizagem do cálculo, decorrentes das primeiras dificuldades.
(conceito de número, seriação numérica, escalas, operações, cálculo mental e problemas). Conforme vão ocorrendo as aquisições, os erros vão se corrigindo. As crianças que apresentam este quadro, geralmente têm os seguintes problemas:
85
6+
────
145
54²
78+
────
114
34
x12
68
30 - 10 = 40
1, 2, 4, 4, 5, 6, 7, 7, 8, 9, 10
2, 4, 5, 6, 8, 9, 10
432
279-
────
747
24
x15
────
120
24+
────
144
351
x32
────
1053
702+
────
8073
A. quanto ao enunciado do problema:
B. quanto ao raciocínio
C. quanto ao mecanismo operacional
Como foi dito, se a discalculia é de natureza pedagógica, fruto das dificuldades inerentes ao processo inicial de aprendizagem da matemática, ela é corrigida gradualmente, sem maior esforço e necessidade de atendimento especializado.
O aluno não apresenta a evolução favorável que caracteriza a aprendizagem da matemática, apesar de ter inteligência normal, apresenta um ou vários transtornos que não aparecem na aprendizagem de outras matérias. Porém, se é uma discalculia que aparece como sintoma de outro quadro caracterizado por um déficit global de aprendizagem, trata-se de uma co-morbidade, que pode ter as seguintes características, de acordo com cada caso:
As dificuldades de cálculo são mais severas quanto mais grave é o déficit intelectual.
As dificuldades se estendem a todas as áreas.
Os indivíduos adquirem com grande esforço o conceito de número e são lentos para assimilar as noções ensinadas, mecanizam e condicionam o que fazem, quase ausência dos processos lógicos e muito limitada a ação do pensamento.
A dislexia não tratada se complica numa série de transtornos que se agravam.
A aptidão matemática que o distinguia sofre deteriorização devido às falhas como: inversão dos algarismos, omissão ou inserção em séries numéricas, mal encolunamento dos números nas operações e dificuldade na compreensão do significado do enunciado do problema.
A afasia, como foi exposto na lição anterior, é um transtorno grave da linguagem com comprometimento de córtex cerebral, sede das operações do pensamento, fator preponderante nos processos lógico-matemáticos. Desta maneira, o indivíduo afásico pode apresentar falhas no cálculo mental, incompreensão de alguns vocábulos ou frases assim como deficiência nas funções de maturação neurológica da atenção e memória.
A criança discalcúlica não tratada pode apresentar dificuldades em outras áreas,apresentando características semelhantes às dos portadores de síndrome disléxica.
O desenvolvimento humano foi conquistado e garantido pela alteração postural que trouxe progressos contínuos na maneira de os seres humanos se relacionarem entre si e com os objetos. A este processo evolutivo obtido com o domínio crescente de novas coordenações motoras, se denomina "desenvolvimento psicomotor", caracterizado por permanente mudança, maturação e aprendizagem.
A psicomotricidade é a técnica ou grupo de técnicas que tendem a interferir no ato intencional significativo, para estimular ou modificá-lo, usando como mediadores a atividade corporal e sua expressão simbólica. O objetivo, por conseguinte, é aumentar a capacidade de interação do sujeito com o ambiente.
Gabriela Núñez y Fernández Vidal (1994)
A psicomotricidade é um foco da intervenção educacional ou terapêutica cujo objetivo é o desenvolvimento da capacidade motriz, das forças expressivas e criativas a partir do corpo, o que o leva a centrar sua atividade e se interessar pelo movimento e o ato, que é derivado de disfunções, patologias, excitação (estímulos), aprendizagem, etc.
Berruezo (1995)
A psicomotricidade é uma disciplina educativa /reeducativa/terapêutica concebida como um diálogo que considera o ser humano como uma unidade psicossomática que atua sobre sua totalidade por meio do corpo e do movimento, utilizando métodos ativos de mediação corporal com o propósito de contribuir para seu desenvolvimento integrado ao ambiente.
Muniáin (1997)
A psicomotricidade é a posição global do sujeito. Pode ser entendida como a função do ser humano que sintetiza o psiquismo e o motor com o propósito de permitir ao indivíduo adaptar-se de maneira flexível e harmoniosa ao meio que o cerca. Pode ser entendida como um olhar globalizado que percebe a relação entre o motor e o psiquismo, assim como entre o indivíduo e o mundo externo. Pode ser entendida como uma técnica, cuja organização de atividades possibilite à pessoa conhecer de uma maneira concreta seu ser e seu ambiente para atuar de maneira adaptada.
De Lièvre y Staes (1992)
Para conhecer mais sobre o campo de estudos e de atuação profissional do psicomotricista, visite o site
A relação entre psiquismo e ato motor fica evidente nestas definições. Portanto, quando aqui nos referirmos à psicomotricidade, estaremos nos reportando ao estudo dos aspectos humanos que integram emoção e ação.
Psicomotricidade é triangulação corpo, espaço e tempo. É a relação do corpo no espaço e no tempo de forma coordenada e sincronizada para criar significados.
A psicomotricidade é o "desejo de fazer, de querer fazer, o saber fazer e o poder fazer".
Quando dizemos "corpo", referimo-nos a uma entidade imaterial, distinta do organismo, que é concreto. O ser humano nasce dotado de um organismo constituído por ossos, músculos, vísceras, membranas etc...que caracterizam sua espécie biológica. O organismo é determinado filogenéticamente, ou seja, sofre as influências das adaptações e mutações decorrentes de processos evolutivos naturais ou culturais da humanidade no decorrer de seu processo sócio-histórico. No organismo está presente a possibilidade de movimento, se o sujeito possui integridade física. Tal possibilidade se dá pela maleabilidade da coluna vertebral e pelas articulações. O corpo, por sua vez é construído mentalmente por cada indivíduo, em seu processo ontológico de desenvolvimento, ou seja, de acordo com suas circunstâncias de vida, com a singularidade de sua história. A construção corporal é constituída por três aspectos: o conhecimento do corpo, a imagem e o esquema corporal.
O conhecimento do corpo é adquirido paulatinamente pela criança quando explora seu organismo e objetivado pelas ciências biomédicas. Compreende a nomenclatura específica para cada parte, seu funcionamento, etc. A criança aprende os conceitos e as palavras correspondentes aos diferentes segmentos e às diferentes regiões do corpo bem como suas funções. Veja a citação de Vayer à respeito desse conceito
"Estes conceitos não fazem parte da experiência propriamente dita, são entidades abstratas mais do que processo perceptivo ou afetivo. Mas a existência de tais conceitos influencia, certamente, a experiência corporal. "
Vayer (1982, p. 31)
A nominação das partes do corpo, como diz Ajuriaguerra (1980, p. 343), confirma o que é percebido, reafirma o que é conhecido e permite verbalizar (por um mecanismo de redução) aquilo que é vivenciado.
A imagem corporal é construída especularmente por intermédio das referências que o sujeito recebe dos "outros" com os quais convive. É pela fala dos outros que cada pessoa, que não é capaz de ver-se a si própria, desenvolve mentalmente uma idéia de sua aparência e de sua maneira de ser e existir neste mundo. Desde que nasce ouve dizer como é parecido com este ou aquele membro da família, como se comporta assim ou assado, como é calmo ou agitado, etc.
O esquema corporal, como o próprio termo denota, é um roteiro, um verdadeiro mapa que vai sendo formado mentalmente e pode ser representado por meios gráficos como o desenho ou a pintura. É a compreensão de que o organismo tem uma ordem natural de integração: a cabeça sobre os ombros, pés e mãos nas extremidades dos membros, etc. Conforme a criança vai organizando este esquema vai sendo capaz de expressá-lo. Muitos professores confundem a noção de esquema corporal, que é mental, com a atividade meramente gráfica.
Uma está relacionada a outra, mas o fato de a pessoa não possuir habilidades para o desenho não significa que não tenha um bom esquema corporal.
É necessário que o educador auxilie seus alunos no sentido de fazê-los centrarem sua atenção sobre si mesmos para uma maior interiorização do corpo. A interiorização é um fator muito importante para que a criança possa tomar consciência de seu esquema corporal. Pela interiorização, a criança volta-se para si mesma, possibilitando uma automatização das primeiras aquisições motoras. A criança que não consegue interiorizar seu corpo pode ter problemas tanto no plano gnosiológico, como no práxico.
O corpo se expressa por gestos, não por movimentos. Por isso, os gestos são pessoais e fazem parte da identidade de cada ser humano, sofredo o impacto das emoções vividas e dos significados compartilhados.
Chama-se "dificuldade específica de aprendizagem" a toda situação problemática relacionada com a aprendizagem de um determinado conteúdo ou habilidade.
A leitura e a escrita são extremamente valorizadas em sociedades letradas e importantes substratos para a construção de conhecimentos nos diversos campos do saber humano. A escola baseia a transmissão didática nestas vias enfatizando,tanto na rede pública como na privada, a função social e a presunção de fracasso que elas evocam, já que ainda se convive no Brasil com altíssimas taxas de analfabetismo funcional e de analfabetos escolarizados.
O censo do Ensino Básico realizado anualmente pelo INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais - possibilita inferências a respeito da relação entre definição de políticas públicas, evasão e fracasso escolar.
Algumas pessoas têm mais facilidade ou mais dificuldade para manejar a linguagem, de acordo com o que se convencionou como "dificuldade de aprendizagem" neste curso, já que as circunstâncias de suas vidas influenciam e produzem diferenças, o que torna os seres humanos animais singulares.
Tal singularidade se expressa na maneira como o ser humano se apropria do conhecimento, conformando sua modalidade de aprendizagem e sua inteligência, dependente que é das relações interpessoais e culturais, conforme sugere o texto "Justo a mim me coube ser eu".
"Justo a mim me coube ser eu"
Toda vez que minha avó paterna me dizia que o molde em que fui feita fora quebrado quando nasci, eu achava que ela estava me elogiando. Acreditava que somente eu era "única" no mundo. Aos poucos, fui percebendo meu engano.
Primeiro, porque, em vez de me tornar diferente, o fato de ser uma criatura única era o que me igualava a todos os seres humanos. Entendi que é parte de nossa condição humana sermos indivíduos exclusivos. Dela ninguém escapa. Em segundo lugar, porque essa exclusividade - recebida com o meu nascimento - não me foi dada assim de mão beijada. Nem veio pronta nem tinha manual. Ele se parece com aquelas massinhas de modelar que, quando a gente ganha, ganha só a massa, não a forma, e o resultado é sempre o fruto de um longo processo de faz e desfaz.
Cedo percebi que jamais teria sossego e que teria muito trabalho. Típico presente de grego, uma armadilha. Encontrei eco para o meu espanto nas palavras da Mafalda, a famosa personagem de Quino, o cartunista argentino, no momento em que ela diz: "Justo a mim me couber ser eu!". Ser quem a gente pode ser é quase uma desolação. Quem eu sou e deverei ser? Minha individualidade é um mistério.
Quantas vezes eu preferi ser outra pessoa! Se não, pelo menos pensei se não teria sido melhor ter nascido em outra família, em outra época, em outra situação financeira, com outra cara, outro corpo, outro temperamento. Ainda mais porque, aparentemente, sempre soube resolver a vida dos outros muito melhor que a minha própria.
Para ser sincera, quando penso que meu "eu" está aberto, o que sinto é um grande alívio. Se eu tivesse nascido pronta, não teria conserto. E se não houvesse remédio para os meus erros e uma chance para os meus fracassos? E se eu não pudesse mudar de ponto de vista, de gosto, de planos, de opinião? E se eu não tivesse escolhas nem alternativas?
Mas também vejo o lado sombrio em ser um projeto aberto: o de nunca ter certeza, sobretudo de antemão, de ter tomado a atitude certa, de ter feito a escolha mais apropriada - aquela em que não me traio.
Quando percebo que um gesto qualquer vai afetar o meu destino, sinto medo, sinto angústia, suo frio, tenho vertigens, adoeço. Ai, a tentação de pegar carona na escolha dos outros ou no estilo de vida deles é grande, mas minha alma grita que não vai dar certo e me lembra que meu molde foi quebrado, que ele é exclusivo.
Levei muito tempo para entender que minha exclusividade não está simplesmente em mim, na minha cor de olhos ou nos meus talentos mais especiais. Ela está sempre lançada adiante de mim como um desafio, como um destino a que tenho de chegar, como uma história que tem que ser vivida. Minha exclusividade - eu mesma - virá apenas quando eu puder afirmar que a história que vim realizando só eu - mais ninguém - poderia tê-la vivido.
É a isso que a personagem Amparo, no filme de Almodôvar "Tudo Sobre Minha Mãe", se refere quando ela afirma que ela é tanto mais autêntica quanto mais perto estiver daquilo que projetou para si mesma. Fala com orgulho e alegria, revelando, assim, que desvendou o mistério que envolve o problema de ser quem somos: autenticar nossa biografia. Avalizá-la.
Onde estou, senão no rastro da história que venho deixando atrás de mim, naquilo que vim fazendo ou dizendo? Onde estou, senão nessa biografia que realizo e atualizo a cada instante por meio das minhas decisões e do meu empenho?
Hoje não me importo mais se sou diferente dos outros, mas se faço alguma diferença neste mundo.
Dulce Critelli
Professora de Filosofia da PUC-SP. É autora dos livros "Educação e Dominação Cultural" e "Analítica de Sentido" e coordenadora do Exixtentia - Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana
A modalidade de aprendizagem configura uma construção que forma parte da estrutura subjetiva humana: instaura-se nos primeiros anos de vida, incluindo o início da escolaridade, conformando uma matriz relacional muito forte entre o sujeito, as figuras ensinantes e o conhecimento. Não é funcional,mas estrutural. É permanente, mas não é fixa, pois pode ser reconstruída.
A leitura e a escrita são conquistas da humanidade e, portanto, têm um significado muito grande para cada ser humano enquanto membro da espécie e enquanto indivíduo.
A linguagem, em sua forma falada ou escrita é sempre uma forma de representação. Faz parte do que alguns autores, como Piaget por exemplo, chama de função simbólica. Para ele, com o desenvolvimento sócio-emocional da criança e a superação do estágio sensório-motor, a possibilidade de representação se instaura e surge a palavra, o que denota o surgimento do pensamento coordenado internamente. De início, esta possibilidade assume a forma do jogo simbólico. Depois, com o surgimento do signo, o jogo representativo é substituído pela fala.
A tese da linguagem como representação está presente em vários autores. Em Lacan, lá está ela, quando ele cita o exemplo já utilizado por Freud do jogo infantil "Fort!" "Da!". Seguindo seu pensamento, podemos compreender como o jogo simbólico de aparecer e esconder representa o desejo da criança pela presença da mãe, e como, no momento em que ela é capaz de representar este desejo, nomeando-o por intermédio de um signo verbal, nasce para a linguagem.
"Assim, o que condiciona a imitação auditiva motora na criança, e de uma maneira geral no sujeito falante, não é um encadeamento completamente reflexo da voz e do ouvido. Em rigor da verdade, é a possibilidade mental de construir um mecanismo a serviço de uma finalidade. É a orientação para a inteligibilidade"
(Delacroix, 1947)
Wallon apresenta tese semelhante ao admitir que, por volta do término do primeiro ano de vida e início do segundo se processa uma renovação total do universo da criança, quando esta adquire uma atividade simbólica que lhe capacita a dar a um objeto sua representação e à sua representação um signo verbal.
"... é preciso admitir uma relação essencial e necessária entre a função fundamental da linguagem e da representação de objetos. A representação "objetiva"... é a meta a que o dito processo conduz... A linguagem... É por si um mediador na formação dos objetos; é, em um sentido, o mediador por excelência, o instrumento mais importante e precioso para a conquista e a construção de um verdadeiro mundo de objetos".
(Cassirer, 1971)
Tais idéias levam a aceitação de que a representação está na base da palavra; que ela faz parte de uma função do pensamento humano - a função simbólica; que ela significa a separação entre o sujeito e os objetos, a própria percepção dos objetos em si; que, ao possui-la a criança tem a possibilidade de substituição geradora do símbolo e do signo, e, portanto, da palavra.
Ao ter acesso à linguagem, ao adquirir a possibilidade da fala pela capacidade simbólica da representação, a criança atinge o mundo dos significantes lingüísticos e passa a compartilhar de uma ordem simbólica que vai, aos poucos, desvendando; descobre, pouco a pouco, as regras da oralidade; passa a se utilizar do código estruturado de acordo com as normas e regras pré-estabelecidas, herança cultural de gerações passadas.
Contudo, neste momento, apenas uma parte deste código da cultura, deste campo simbólico da sociedade, lhe é oferecido. Pelos caminhos da escrita, toda a potencialidade cultural ser-lhe-á, enfim, aberta.
Com o acesso à linguagem falada, a criança entra no domínio da língua.
Diferenciando-se do objeto, o sujeito adquire novo poder sobre esses mesmos objetos e, conseqüentemente, um novo poder sobre si mesmo.
Uma criança que fala situa-se em relação às coisas e pessoas que a cercam, mas, ao mesmo tempo, situa seu tipo de relação com essas mesmas coisas e pessoas. Essa situação pessoal, ressalve-se, já não é a primitiva, a verdadeira, na medida em que o primitivo, o verdadeiro, já foi substituído e representado por símbolos e por isso a psicanálise lacaniana diz que a ordem simbólica constitui o sujeito. Isso significa que, ao conquistar sua participação nesta ordem, pela via da linguagem, o individuo passa a ser por ela constituído, perdendo sua originalidade, seu verdadeiro Eu, que ficou escondido sob o manto das significações.
Ao constituir seu mundo significativo, ao ser introduzido na ordem cultural, o individuo passa também a constituir essa ordem, com as atribuições que a ela pode dar; ele compartilha do discurso coletivo e, ao mesmo tempo, ele próprio é o discurso, porque é na formação e no uso da língua que se transmite às gerações um caráter particular da percepção dos objetos, uma visão de mundo inerente a um grupo social. Mas, ao mesmo tempo, ter um instrumento da língua é sinal de humanidade, de participação na comunidade dos homens, na história do mundo.
Quando nos referimos à "língua", damos a esse termo sentido diverso ao de linguagem. Significa um sistema mais estreito, restrito a uma comunidade e não inerente ao gênero inteiro. É um produto eminentemente social, criação coletiva de um grupo humano, passível, como código, de ter suas regras ensinadas àquelas que compartilham aquela cultura.
Assim, em nosso país por exemplo, a criança que freqüenta uma escola vai aprendendo, de forma sistemática e organizada, as regras da língua da comunidade em que vive. Durante a fase pré-escolar esta aprendizagem é, sobretudo, oral, evidenciando o conceito de que o signo verbal é anterior ao escrito; que a fala precede a escritura. No limite entre essa fase e a escolaridade de 1º grau, durante a classe de alfabetização, o signo escrito -grafema- é ensinado e aprendido por aqueles que vivenciam nossa cultura. Só neste momento todas as relações significativas podem estabelecer-se, pois, só então os significantes adquirem, para o sujeito, a plenitude de sua forma e podem ser empregados com todas as suas potencialidades, nas relações sociais. Quando isso não ocorre estamos diante das seguintes possibilidades:
As dificuldades específicas da linguagem oral são diagnosticadas e tratadas pelo fonoaudiólogo, profissional especialista em tal campo de conhecimento e atuação. Precisam ser conhecidas pelo psicopedagogo para encaminhamento a este profissional ou atendimento em conjunto, quando se fizer necessário.
As alterações na linguagem escrita envolvem os processos de leitura e grafia das palavras. São consequência de transtornos, distúrbios ou dificuldades específicas de aprendizagem e afetam sobremaneira o rendimento escolar, ocasionando prejuízos para os aspectos emocionais relacionados ao sentimento de competência e auto-estima. Precisam ser estudados pelo psicopedagogo porque a maior parte dos clientes que chegam aos seus consultórios apresentam queixas relacionadas a elas. Podem ser tratados apenas na clínica psicopedagógica ou por equipes multidisciplinares, de acordo com cada caso em particular.
Os mais comuns são os seguintes:
As disgrafias têm sempre um componente motor associado ao seu aparecimento, independente da causa geradora.
Diante do quadro caótico em que se encontra a educação nacional, decorrente do baixo nível da formação docente e da falta de políticas públicas dirigidas para a qualidade do processo pedagógico, os casos de disortogafia, em sua grande maioria, são decorrentes de dificuldades de ensino que se transformam em dificuldades específicas relacionadas á escrita, nos alunos. A este respeito, ler o anexo "Construtivismo não é um método, mas uma filosofia de vida".
DIS - distúrbio; LEXIA - (do latim) leitura; (do grego) linguagem; DISLEXIA - dificuldades na leitura e escrita.A definição mais usada na atualidade é a do Comitê de Abril de 1994, da International Dyslexia Association - IDA, que diz:
"Dislexia é um dos muitos distúrbios de aprendizagem. É um distúrbio específico da linguagem, de origem constitucional, caracterizado pela dificuldade de decodificar palavras simples. Mostra uma insuficiência no processo fonológico. Estas dificuldades de decodificar palavras simples não são esperadas em relação a idade. Apesar de submetida a instrução convencional, adequada inteligência, oportunidade sócio-cultural e não possuir distúrbios cognitivos e sensoriais fundamentais, a criança falha no processo de aquisição da linguagem. A dislexia é apresentada em várias formas de dificuldade com as diferentes formas de linguagem, freqüentemente incluídas problemas de leitura, em aquisição e capacidade de escrever e soletrar."
"A DISLEXIA é uma dificuldade de aprendizagem na qual a capacidade de uma criança para ler ou escrever está abaixo de seu nível de inteligência."
"A DISLEXIA se refere a uma dificuldade de aprendizagem relacionada à linguagem. É caracterizada por dificuldades na leitura, escrita (ortografia e semântica), matemática (geometria, cálculo), atraso na aquisição da linguagem, comprometimento da discriminação visual e auditiva e da memória seqüencial ."
"A DISLEXIA é um transtorno, uma perturbação, uma dificuldade estável, isto é duradoura ou parcial e, portanto, temporária, do processo de leitura que se manifesta na insuficiência para assimilar os símbolos gráficos da linguagem."
"A DISLEXIA não é uma doença, é um distúrbio de aprendizagem congênito que interfere de forma significativa na integração dos símbolos lingüísticos e perceptivos. Acomete mais o sexo masculino que o feminino, numa proporção de 3 para 1."
A rigor, não há nenhuma segurança em afirmar uma ou outra etiologia para a causa da dislexia, mas há algumas situações que foram descartadas:
Em hipótese alguma o disléxico tem comprometimento intelectual. Segundo a Teoria das Inteligências Múltiplas, o ser humano possui habilidades cognitivas: inteligência interpessoal, inteligência intrapessoal, inteligência lógica-matemática, inteligência espacial, inteligência corporal-cinestésica, inteligência verbal-linguística, inteligência musical, naturalista, existencial e pictórica. O disléxico teria sua inteligência mais predisposta à inteligência corporal-cinestésica, musical, espacial.
Quanto ao emocional, é preciso avaliar muito bem. Pode haver um comprometimento do emocional como conseqüência das dificuldades da dislexia, mas nunca como causa única.
A criança disléxica não tem perda auditiva.
Há vários estudos que têm trazido contribuições importantes para a compreensão da dislexia. No módulo 1 deste curso, foi apresentada a tese do dr. Galaburda sobre o aspecto constitucional do cérebro dos disléxicos.Todos esles apontam para as seguintes conclusões a respeito dos sintomas da dislexia:
Inadequado processamento auditivo (consciência fonológica) da informação lingüística.
Desde a fase da educação infantil alguns sinais e sintomas podem oferecer "pistas" sobre a criança disléxica. Eles não são suficientes para se fechar um diagnóstico, mas indicam que a síndrome pode estar presente:
A respeito da Dislexia, cuja complexidade e alcance nas atividades escolares é muito grande, sugerimos:
Livro "O Dom da Dislexia"
O livro, de autoria de Ronald D. Davis, apresenta a dislexia sob o ponto de vista de seus aspectos positivos, oferecendo uma nova visão sobre a síndrome. Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2004.
Livro "A Escrita Criativa e Formal"
O livro, de Mabel Condemarín, especialista chilena de renome internacional, apresenta aspectos teóricos e práticos para a compreensão do processo de aprendizagem da escrita, os possíveis problemas e suas soluções . Editora Artes Médicas, Porto Alegre, 1987.
Livro "Problemas de Aprendizagem"
O livro, de autoria de Lucinda Dias, apresenta a abordagem antroposófica aos problemas de aprendizagem, indicando os procedimentos para a intervenção. Editora Antroposófica, São Paulo, 1985.