A Família

A CRIANÇA NA FAMÍLIA E A FAMÍLIA DA CRIANÇA
O objetivo deste texto é enfatizar a importância das “oportunidades educativas no âmbito da vida cotidiana” para o desenvolvimento e educação da criança, principalmente, no que tange às interações sociais. Nessa direção, qualquer proposta de trabalho deve valorizar e ampliar o conhecimento das famílias e dos grupos sociais a respeito dos cuidados e da educação da criança. Tais propostas não podem, entretanto, impor um saber técnico e muito menos ter a pretensão de substituir o direito de acesso sistemático da criança ao contexto escolar da Educação Infantil.
Quando se trata de valorizar e compreender as oportunidades educativas no âmbito da vida familiar e comunitária, a primeira questão é identificar as concepções e idéias sobre a criança presentes nas famílias e na comunidade.
“Criança parece que já nasce esperta, desde pequena já sabe mexer na televisão, no som e também já nasce com vontade, não quer obedecer aos mais velhos.”
“Eu procurei dar muita atenção para os meus filhos quando eram pequenos, a criança pequena exige atenção e carinho para se desenvolver melhor.”
“Criança aprende é brincando e perguntando, meu Deus, como elas são curiosas.”
“A gente tem que conseguir uma pré-escola para nossos filhos, eles têm precisão de aprender muitas coisas desde cedo hoje em dia.”
“Olha só o desenho da Taís, ela já aprendeu que os braços saem do tronco e não do pescoço.”
As falas acima exemplificam a noção de criança como um ser competente, com necessidades, modos de pensar e de fazer as coisas que lhe são próprios entretanto, essa idéia, além de recente na história ocidental, não pode, ainda, ser considerada hegemônica. Além disso, a idéia de infância varia de acordo com a inserção da criança na família, na classe social, na sociedade em geral.
Um poema também nos ajuda a pensar sobre as crianças e famílias, hoje:
Dia a dia nega-se às crianças o
direito de ser crianças. Os fatos,
que zombam desse direito, ostentam
seus ensinamentos na vida cotidiana.
O mundo trata os meninos ricos como se
fossem dinheiro, para que se acostumem
a atuar como o dinheiro atua. O mundo
trata os meninos pobres como se fossem
lixo. E os do meio, os que não são ricos
nem pobres, conserva-os atados à mesa
do televisor, para que aceitem desde
cedo, como destino, a vida prisioneira.
Muita magia e muita sorte têm as crianças
que conseguem ser crianças.
Eduardo Galeano
A escola do mundo às avessas
No Brasil coexistem diferentes modos e oportunidades de criar e educar as crianças pequenas. Essas diferenças, infelizmente, se devem menos à nossa rica diversidade cultural do que à imensa diferença econômica entre as classes sociais. Assim, a diferença entre as crianças e famílias brasileiras fica calcada em um fator extremamente negativo: a enorme desigualdade social.
Podemos verificar que não se tem aproveitado como base para a educação da criança a nossa maior riqueza: a diversidade sóciocultural, materializada nas músicas, modos de falar, danças, histórias, comidas, vestimentas e outras práticas culturais. No momento atual, globalizado, monológico, em que a tendência é a imposição de um modelo econômico e cultural único, que desvaloriza e hierarquiza os padrões culturais das populações, corre-se o risco de eliminar a riqueza e as peculiaridades de cada sujeito.
Tendo em vista que existe, inequivocamente, uma interdependência fundante entre o sujeito e o seu contexto sociocultural, é preciso reconhecer que o sujeito humano é constituído a partir de uma realidade plural, na qual estão presentes muitas vozes e que é justamente essa polifonia que permite a singularização do sujeito, tornando o único e diferente do outro.
Na realidade cotidiana de muitas famílias brasileiras, os pais enfrentam grandes dificuldades para cuidar e educar seus filhos, principalmente, como já apontamos, por razões econômicas. Vemos, por exemplo, crianças pobres com um tempo de infância muito reduzido, sem possibilidade de viver de acordo com suas necessidades e características: desde cedo cuidam dos irmãos menores, ficam trancadas em barracos ou perambulando e vivendo de esmolas pela rua. A essas crianças é imposta uma autonomia precoce e subalterna posto que não melhoram a auto-estima, nem rompem com a pobreza e a submissão.
Criar e educar filhos, entretanto, não é só uma questão de ter condições financeiras adequadas. Com as crianças de famílias mais ricas geralmente ocorre o contrário: a infância é de longa duração: ao receberem mais cuidados do que necessitam, os filhos tornam-se muito dependentes as pessoas se antecipam e fazem as coisas pelas crianças e não com elas. Muitas dessas crianças não experimentam nem a liberdade de brincar pelo medo de seus pais com sua segurança e saúde nem a sensação de desejar e fantasiar pois, à medida que tudo lhes é fornecido em profusão, não percebem a diferença do ter/não ter, não aprendem a repartir, e, o mais grave, não sabem o que é realmente desejar confundem desejar com consumir por consumir.
E volta-se a pensar no poema: “(...)Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.”
Outro aspecto da diversidade entre as famílias é que sua própria estrutura vem passando por modificações, o que acarreta diferentes configurações e formas de significar a rede de relações familiares. Há famílias tradicionais com marido, mulher e filhos; famílias monoparentais os filhos vivem com a mãe ou com o pai, separadamente; famílias recasadas filhos que vivem com um dos pais recasado; famílias ampliadas as crianças são cuidadas pelas avós e/ou tios; famílias não convencionais pais homossexuais ou poligâmicos; entre outras formas de organização familiar. Além disso, mesmo nas famílias tradicionais, o papel exercido pelos pais tem sofrido alterações significativas.
Como podemos concluir, não existe uma família ideal ou um modelo de família existem as famílias reais. Não obstante, seja qual for a sua configuração, a família continua sendo a instituição social responsável pelos primeiros cuidados, pela proteção e pela educação da criança pequena e, ao mesmo tempo, o primeiro e principal canal de iniciação dos afetos, das relações sociais e das aprendizagens para a criança.
O papel da família encontra apoio legal na Constituição Brasileira no seu artigo 227 e no Estatuto da Criança e do Adolescente que diz: “ É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária.”
Na família a criança começa a ter seus direitos garantidos. Para cumprir com seu dever junto aos filhos, a família também precisa ter garantidos os seus direitos sociais básicos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE/1999 30,5% das famílias brasileiras com crianças até os seis anos vivem com uma renda per capita mensal igual ou inferior a meio salário mínimo. Vivemos o desafio de erradicar a pobreza criadora de um ciclo vicioso que, através de gerações, mantém a exclusão social de muitos brasileiros. A pobreza está relacionada ao acesso inadequado a serviços sociais básicos como saneamento, serviços de saúde, creches e pré-escolas. E sabe-se que as crianças são as mais atingidas com essa situação adversa.
Também conforme dados do IBGE, temos no Brasil 22.025.902 crianças de zero a seis anos, das quais apenas 3,44% freqüentam creches e 21,02% a pré-escola.
Os dados mostram que a grande maioria das crianças até os seis anos convive o dia todo
Além das oportunidades sociais e econômicas, a família precisa, para cumprir seu papel em relação aos filhos, ter acesso a informações atualizadas sobre desenvolvimento infantil, incluindo os cuidados com saúde e alimentação, a imunização contra doenças, a prevenção de acidentes, a higiene da boca, do corpo e do ambiente; e, sem dúvida, as oportunidades educativas que promovem a aprendizagem e a formação de uma personalidade saudável pela criança relacionadas tanto ao tipo e à qualidade das interações interpessoais como às atividades mediadas pelo adulto e por outras crianças.
O acesso à informação sobre o desenvolvimento e aprendizagem da criança pode representar um saudável confronto entre o saber técnico e os costumes, os valores, e a realidade das famílias o que contribui para enriquecer a percepção dos pais sobre seus filhos e ampliar a vivência da maternidade e da paternidade. Dessa forma, possibilita o estabelecimento de processos interativos e laços afetivos mais significativos, criando-se ambiente social de desenvolvimento tanto para os pais como para os filhos.
As informações fornecidas às famílias também devem contemplar os conhecimentos necessários para que elas reivindiquem e fiscalizem serviços de qualidade na comunidade serviços esses que devem formar uma rede de apoio nas áreas de saúde, educação e assistência social, visando a atender a demanda das famílias, de acordo com suas necessidades.
No caso dos serviços de saúde, por exemplo, que incluem os profissionais que primeiro atendem à família na atenção a suas crianças, é preciso dialogar sobre as necessidades e peculiaridades da criança, antes mesmo do nascimento.
As instituições de Educação Infantil, além de prestar atendimento direto à criança, precisam ter ações coletivas e individuais, no sentido de apoiar mulheres e homens nos cuidados e educação de seus filhos. Para tanto, a escola precisa estabelecer com a família uma relação dialógica, de respeito mútuo, onde cada uma das partes traz seu conhecimento sobre o desenvolvimento infantil. A articulação da família com os serviços também contribui para a criação de uma cultura de desenvolvimento infantil nas comunidades.
Construindo um ambiente social de desenvolvimento na família e na comunidade
Não se trata de apresentar um modelo para as famílias de como uma criança deve ser educada, mas sim de dialogar com elas, trazendo algum conhecimento técnico para que possa ser confrontado com o saber dos pais e das famílias. Cora Coralina ilustra essa idéia quando diz: “O saber a gente aprende com os homens e com os livros, a sabedoria a gente aprende é com a vida”.
Cada família vive sua vida à sua maneira, vai criar seus filhos do seu jeito, mas todas as famílias têm o direito de ter acesso a conhecimentos que as apoiem para construir sua sabedoria. O conhecimento de certas atividades, certos tipos de interação que o estudo e a experiência mostraram ser favoráveis ao desenvolvimento das crianças pode ajudá-las nessa tarefa.
O bebê humano é concebido e nasce num mundo social e não simplesmente natural, em que os objetos, as atividades, a explicação de fenômenos foram criados pelas gerações que o precederam. Desde a concepção e principalmente após o nascimento o bebê interage com as pessoas de sua família que compartilham com ele seus modos de pensar, falar e fazer as coisas, integrando-o aos conhecimentos e habilidades de seu grupo social. A base biológica do homem, que lhe dá as possibilidades e os limites característicos da espécie humana, não é suficiente para torná-lo humano, ela precisa ser transformada e aprimorada pelas experiências sociais.
É portanto através da ação compartilhada, das relações com as pessoas que a criança se apropria dos conhecimentos de sua cultura. Essa apropriação se dá primeiro na interação da criança com outra pessoa, a criança faz junto para aprender (plano interpessoal) e depois na própria criança que aprende a fazer e se desenvolve (plano intrapessoal). Sendo assim, o processo de desenvolvimento vai do social para o individual.
O papel da família é então fundamental, pois os processos de desenvolvimento da criança estão intimamente ligados aos modos como ela é criada e educada. As primeiras e mais significativas relações e aprendizagens da criança pequena são realizadas com seus pais e as pessoas que cuidam dela no dia-a-dia. Essas atividades são significativas para a criança porque são as atividades do meio em que ela vive e feitas com as pessoas que ela gosta e que gostam dela.
Com base em estudos de outros psicólogos da corrente histórico-cultural e pesquisas de muitos anos Elkonin (1972) elaborou uma interessante teoria sobre atividade dominante em diferentes períodos do desenvolvimento da criança. Quando fala de atividade dominante ele está se referindo àquela atividade mais significativa para o desenvolvimento da criança naquele período. Ele ressalta, no entanto, que outras atividades também compõem a vida da criança em cada período e que novos tipos de atividades vão surgindo. Quando uma nova atividade se torna dominante, ela não anula as precedentes e sim contribui para enriquecer ainda mais o sistema de relações da criança com seu ambiente.
Aproveitando suas formulações, sugerimos várias atividades que são significativas para o desenvolvimento da criança no âmbito da vida cotidiana das famílias e na comunidade.
Desde que o bebê nasce, a atividade em que ele mais se desenvolve é a de interação física e afetiva com o adulto. Os bebês, em condições normais, procuram o contato com o adulto e têm uma forma especial de atividade, de natureza especificamente emocional para o contato pessoal. Segundo Elkonin é dentro dessas atividades de contato emocional que as ações de orientação, manipulativas e sensório-motoras se estruturam. Assim, ele aponta que a falta (e com grande probabilidade o excesso) de contato emocional influenciam o desenvolvimento do bebê nessa fase, pois é a presença de adultos com quem a criança estabelece relações estáveis que vai dar segurança física e emocional ao bebê para explorar o ambiente e os objetos ao seu redor.
A ligação do bebê com sua mãe e seu pai começa desde a gestação, pois hoje já sabemos que o feto tem capacidade de sentir e reagir a vários estímulos do ambiente. Após o nascimento, o bebê deve ficar sempre com sua mãe e ambos em contato com o pai, daí a importância do alojamento conjunto nos hospitais e maternidades. Ao chegar em casa, a mãe precisa de apoio para que possa ficar por conta de seu bebê. A amamentação é muito importante para o bebê e para a mãe. Além de receber um alimento feito especialmente para ele, é o momento em que os dois ficam mais ligados. O pai pode se fazer presente colocando o bebê para arrotar, trocando suas fraldas, embalando-o no colo. Assim aquela ligação que começou na gestação vai aumentando o amor entre o bebê e seus pais.
O bebê se comunica basicamente pelo choro e pelos movimentos de seu corpo e os pais aos poucos vão entendendo o que ele quer. Bebê que é atendido sente confiança nos pais e geralmente é mais tranqüilo.
Aos poucos o bebê vai conhecendo melhor as outras pessoas da família e gosta de ficar com elas. Avós, tios, irmãos e primos maiores são importantes para seu desenvolvimento. Ele vai adquirindo outras maneiras de solicitar a presença das pessoas e de se preparar para falar. Quando as pessoas da família prestam atenção e repetem os sons que o bebê faz, estão ajudando-o a aprender a falar.
Para distrair o bebê as pessoas dão-lhe objetos e com isso vão despertando sua curiosidade por eles. Ele continua gostando de ter alguém sempre por perto, mas se interessa cada vez mais pelo que os outros lhe dão.
Por volta de um ano de idade a atividade que mais desenvolve o bebê é a de aquisição de modos de ação socialmente evoluídos com os objetos. Como a criança não pode mais ficar o tempo todo junto do adulto, gosta muito de brincar com as coisas que eles usam por exemplo: pentes, escovas, martelos, livros, rádio, televisão... Ou seja, o contato emocional direto recua para um segundo plano e o papel do adulto é o de cooperação com a atividade prática
Elkonin ressalta que a escolha dessa atividade como a que mais desenvolve a criança nessa fase pode parecer contraditória com o fato de que é nesse período que a criança passa de um contato de cunho emocional e gestual para um contato mediado por palavras. Não deixando de levar em conta o papel da fala como fundamental para a expressão e organização do pensamento, ele ressalta que o desenvolvimento intensivo da fala, vista como meio de apoiar a cooperação com as pessoas, não contradiz a idéia de que a atividade dominante nesse período se dá em relação aos objetos.
Vemos então a criança começando a pedir com palavras quando quer alguma coisa. Ela entende cada vez mais o que os adultos falam com ela e vai começando a falar. Uma criança que vive num ambiente onde as pessoas falam com ela, dão significado às coisas que ela faz, ouvem e explicam o que ela pergunta tem mais chances de transformar as funções mentais elementares com que nasce em funções mentais superiores como a atenção e a memória voluntárias, a conceituação. A palavra é o elemento de mediação principal entre as pessoas e a criança. A palavra não é apenas expressão do pensamento, ela é um ato de pensamento. Pensamento e palavra formam uma unidade dinâmica na prática social da linguagem.
Nesse período também a criança começa a se movimentar por conta própria, a ir para onde quer. Os adultos começam a ter quer dizer vários “não” e a cuidar mais ainda da segurança no ambiente em que a criança fica. Como ela já está mais independente, ouve o “não” dos adultos e quer mostrar que tem vontade própria, diz “não” para quase tudo. Além disso é curiosa, quer mexer nas coisas. Com isso os adultos acabam perdendo a paciência e muitas vezes o limite, que se necessário, é dado com violência. Esse limite deve ser dado com carinho e firmeza, mas sem violência. Criança que aprende apanhando, também aprende a bater. Também são formas de violência: não cuidar da criança, não atender ao seu choro, não conversar com ela, meter medo, ameaçar, abusar da criança. Criança que sofre violência perde a confiança nas pessoas, geralmente se torna um adulto tímido, medroso, sem iniciativa ou mesmo agressivo e violento. A maior parte das agressões contra a criança se dá dentro da casa. Essa violência está ligada à própria violência que o adulto recebe e recebeu da sociedade, como também ao não conhecimento de características do desenvolvimento da criança e aos modos de como lidar com elas.
Os limites dados à criança não se resumem a lhe dar segurança ou a lhe ensinar a respeitar as outras pessoas, eles também são importantes para o desenvolvimento de funções mentais superiores, como a imaginação, como veremos a seguir.
Por volta dos dois anos as crianças (algumas delas até antes} começam a brincar, de faz-de-conta. Para Elkonin, esta brincadeira se constitui na atividade mais significativa para o desenvolvimento da criança no período que se inicia.
Observamos então a criança que já tem maior autonomia de movimentos a querer fazer tudo sozinha, inclusive o que não pode. Quando a família começa a mostrar os limites, a criança desenvolve sua imaginação, procurando fazer na brincadeira o que foi proibido. Além disso, a vontade de ter os pais junto dela também continua. Como isso não é possível, a criança procura trazê-los para junto de si por meio da imitação de suas atividades. Por exemplo, imita o pai mexendo no som, a mãe passando batom. Nesse início do faz-de-conta a ação da criança com os objetos ainda está muito ligada ao objeto em si: se ela vai imitar o pai dirigindo o carro, ela precisa de um carrinho para brincar. Depois ela já vai conseguir usar um pedaço de pau ou uma caixinha para servir de carro. Ou seja, a ação é que vai determinar o significado do objeto. Numa fase posterior, a criança não vai precisar mais dos objetos para imitar o que as pessoas fazem, ela pode brincar usando as palavras “Vou pegar o carro e passear na praia.” A brincadeira de faz-de-conta ajuda a desenvolver o pensamento da criança que agora se apóia em idéias e palavras. A criança aprende a pensar sobre uma coisa falando sobre ela. Esse tipo de pensamento vai ser muito valorizado na escola. O faz-de-conta é uma atividade dentro da qual a criança assume o papel do adulto, seu trabalho, suas funções e procura entender o significado das atividades que os adultos fazem. Nela a criança também cria situações que a ajudam a resolver conflitos emocionais, aprende a aceitar regras que a própria brincadeira lhe impõe implicitamente pois, ao imitar o que os adultos fazem, a criança precisa ter atitudes e comportamentos que são mais adiantados que os seus. É bom para a criança que a família valorize e crie espaço para o brincar de faz-de-conta.
Outras atividades também precisam fazer parte da vida cotidiana das crianças. Espaços na comunidade onde elas possam brincar ao ar livre, se movimentar em lugares mais amplos como praças e parques são muito importantes e estão cada vez menos presentes nas comunidades.
A brinquedoteca como espaço cultural, onde brinquedos e brincadeiras se constituem como eixo polarizador, é um lugar privilegiado para trocas, socialização e influências recíprocas das crianças e suas família e entre as famílias. É o lugar da cultura popular, do folclore, dos brinquedos e brincadeiras que trazem a história das famílias e da comunidade e que fazem parte da sua identidade. Na brinquedoteca um tipo de interação diferente se instala, pois é o lugar do brincar por excelência. As cantigas de roda, as músicas, as danças, os jogos coletivos, como o dominó, a amarelinha, o pique-esconde na brinquedoteca encontram seu espaço de acontecer. Na grande maioria das comunidades, o espaço para a criança brincar diminui cada vez mais. As brinquedotecas dão oportunidade para que a atividade do brincar, profundamente necessária para a criança, aconteça num lugar preparado para isso e também aproxima pais e filhos da cultura do lugar onde vivem.
A leitura de histórias, de notícias de jornais, de cartas de parentes fazendo parte do dia-a-dia ajudam a criança a entender que coisas escritas comunicam idéias e notícias e com isso ela sente curiosidade e interesse em se apropriar desse tipo de conhecimento fundamental nos dias de hoje para a conquista da cidadania.
Além de brincar, a criança gosta de participar de atividades que seus pais, irmãos maiores, parentes fazem cotidianamente: o fazer junto o fazer com é a base da aprendizagem e do desenvolvimento da criança. O que ela num primeiro momento faz junto com outra pessoa mais experiente é o que ela vai fazer por conta própria depois. Quando pode participar de atividades que os pais e outras pessoas mais experientes da família fazem, ela está aprendendo também a ajudar os outros, a valorizar o trabalho, a se sentir mais capaz e adquirir confiança em suas capacidades.
Um outro fator presente na educação das crianças hoje em dia é a televisão. Boa parte das famílias brasileiras, mesmo as de baixa renda, têm uma TV. As crianças desde bem pequenas assistem a programas infantis, muitos de qualidade duvidosa e a outros destinados aos adultos. A televisão é portanto uma das fontes de onde as crianças recebem informações e exemplos. Ainda não se sabe com certeza em que a televisão ajuda e no que prejudica o desenvolvimento da criança. Mas já há consenso que certo tipo de programas não são próprios para a criança e que a televisão não deve substituir as brincadeiras da criança. Para entender o que assiste, a criança precisa encontrar na família momentos para conversar e brincar sobre o que a televisão apresenta.
A família tem portanto um espaço que lhe é próprio para proteger, cuidar e educar suas crianças. Quando é apoiada e reforçada aumenta sua competência para fazê-lo.
E assim fica o sonho de que um outro poema possa ser escrito. Poema onde crianças vão ser diferentes porque a experiência compartilhada, valores de solidariedade, cooperação, respeito às diferenças entre as pessoas, liberdade e responsabilidade começam a ser ensinados pelas mães, pelos pais, pelos avós a suas crianças nas famílias.
A lista acima contém os conceitos das crianças sobre bons pais, pois pode ajudar na formação dos seus critérios pessoais.
Lembre-se que o essencial para criança, não é a quantidade de horas que vocês passam juntos, mas o amor com que você constrói a sua educação e qualidade dos momentos que serão desfrutados ao longo da vida.